Os atalhos da mente no processo decisório

Os atalhos da mente no processo decisório

03/11/2015

Quando tomamos a decisão de escolher um caminho, trocar de emprego, investir em determinado produto financeiro, julgamos que esta escolha é sempre a melhor em comparação com as demais opções ofertadas. Todavia seria esta uma verdade absoluta?

A teoria da utilidade esperada julga que sim, pessoas racionais levam em consideração SEMPRE todas as variáveis possíveis e imagináveis para se tomar uma decisão. Infelizmente esta sempre foi uma excelente teoria... ....na prática os acadêmicos quebravam a cabeça ao analisar o porquê da baixa aplicabilidade desta máxima, até que no final dos anos 70 os pesquisadores Kahneman e Tversky formataram a Teoria do Prospecto.

Este ramo de estudo, a grosso modo, prevê que nosso cérebro se utiliza de alguns atalhos para a tomada de decisões difíceis em um curto prazo de tempo. A esses atalhos chamamos Heurísticas.

Dentro desses atalhos, ou heurísticas, estamos sujeitos a percalços, aos quais chamamos vieses.

Podemos resumir os vieses e as heurísticas no processo decisório com base em nossas experiências, crenças, disponibilidade de informações no momento da tomada de decisão e/ou qualquer fator psicológico que possa interferir positiva ou negativamente no processo decisório.

Suponha, por exemplo, um executivo de finanças que tenha desenvolvido sua carreira em empresas do mercado financeiro. O foco de seu trabalho são as finanças desta empresa, todavia, seu conhecimento em produtos, restringe-se estritamente àquele mercado, com o qual está acostumado a trabalhar.

Em uma mudança em sua carreira, este executivo assume a área financeira de um grande frigorífico. À priori, seu trabalho continua o mesmo, liderar as finanças da empresa, todavia a missão e a visão da empresa são completamente diferentes daquilo que este executivo está acostumado.

A certa altura desta nova experiência, o executivo se depara com a possibilidade de utilizar parte do capital de giro da empresa (lembrando que o capital de giro é o dinheiro destinado a cobrir as operações da empresa) em um investimento no mercado financeiro com uma relação riscoxretorno razoável. Ratificamos que este capital pertence a uma empresa do setor alimentício e este capital é necessário para as atividades operacionais da empresa.

Prontamente, dada a relação riscoxretorno deste investimento, o executivo de finanças optou pelo investimento, deixando de lado atividades essenciais da empresa por um período e/ou recorrendo a empréstimos bancários para que estas atividades não ficassem de lado.

Pelo ponto de vista lógico, o que este executivo fez é completamente imoral, uma vez que ele fugiu completamente às atividades operacionais da empresa, ou seja, fugiu à missão e à missão da companhia. Porém, se este investimento de fato gerar um bom lucro, poderá garantir que no futuro a empresa possa investir em atividades e ações que visem de fato sua missão e visão, como melhorias no processo produtivo, abertura de uma nova filial, enfim, qualquer coisa que vá impulsionar a rentabilidade e a operação da empresa.

Do ponto de vista prático, o que este executivo fez é se utilizar de sua experiência no mercado financeiro para tomar uma decisão de investimento. Deixando de lado a lógica da utilização do capital da empresa em sua própria operação. Este é um claro exemplo de Heurística. Todavia este mesmo executivo poderia pecar por um eventual excesso de confiança em operações financeiras, prejudicando sua nova empresa em uma eventual falha na operação de investimento. Este seria um claro exemplo de um viés.

Claro que este é um exemplo extremo, porém, quantas vezes nos deparamos com situações como esta em nosso cotidiano corporativo? Um gestor avesso à mudanças, um novo contratado “dono” de verdades absolutas. Quantas vezes nós mesmos somos o agente desta teoria do prospecto?

Seria impossível para nós, humanos, a utilização total e imparcial da lógica em uma tomada de decisão, justamente pelo fator humano envolvido no processo. O que nos cabe, de fato, é a ciência do quanto estes fatores podem influenciar nos resultados de uma decisão tomada.